São asas que eu nunca pude usar.

Um diário. Um desejo. Um desabafo. Um desaforo. Um suor que escorre do coração aos dedos. Uma insônia que atormenta. Um medo, que transborda. Pensamentos que reviram e remexem e acabam vindo parar aqui.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Hoje, eu cai.
Cai como há muito tempo eu não havia caído. Me vi ávida por algo que iria me ferir, somente pra liberar algo que caso não externalizado, me mataria. 
O que fazer quando o seu maior inimigo é você mesma ou algo que habita em ti, desde que você entendeu que existia.
Eu senti o peso de mil homens sobre o meu peito e achei que não aguentaria.
Até que eu pensei em ti e em tudo que você não merecia passar, em tudo que eu não julgo merecer.
E eu, realmente, não sei se mereço você. 
Eu sempre pensei que não podia ser egoísta ao conhecer pessoas maravilhosas, pessoas assim são bem pro mundo e não podem ficar guardadas em um só peito e mesmo com todas as minhas inseguranças o correto é deixa-las voar.
Você não é minha. Não é algo que eu possuo. É alguém que tem aceitado estar comigo. Mas de alguma forma, eu sinto que, depois de anos em que nossas histórias se cruzaram, que nossas vidas se fundiram e correm lado a lado, eu não sei se suportaria deixar você ir.
As vezes, a noite, eu tenho um pesadelo qualquer e não consigo dormir, peço a Deus o quem quer que esteja no comando pra te proteger porque algo de bom aconteceu pra mim, porque do meu lado na cama está a pessoa por quem eu mais torço nessa vida.
Sim, eu sinto medo de que você encontre alguém tão iluminada, tão inteligente e tão boa quanto você.
Alguém que seja mais bonito ou não, porque eu sei que você não liga exatamente pra isso.
Mas alguém que preencha as lacunas que eu não consigo, saiba lidar com o que eu não lido e que sim, mereça o amor que você tem, que você é.
Eu tenho sido refém dos meus medos desde o início, de tempos eu tempos eu me sinto dessa forma.
Mas eu  juro que estou tentando me encontrar.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

04:59


Eu sempre achei que fosse morrer cedo, deixando algo inacabado.
Não por uma questão de mistério que transcenderia minha existência, mas por uma simples e bizarra vontade da vida me deixar profundamente puta.

Talvez eu morresse no momento em que o finalizo. Teria em mãos um lápis, um pincel, uma arma,  algo acabado. Mas certamente, ainda teriam pontas soltas, talvez uma palavra escrita de forma errada ou uma que se repetisse por tantas e tantas vezes que eu tivesse muita vontade de voltar somente para consertá-la.

Nos meus últimos momentos, eu não sei se pensaria sobre o amor, sobre Deus ou sobre a morte. Não sei se eu conseguiria pensar naqueles parágrafos que deixei de escrever ou naquele quadro que deixei de pintar por perder tempo ouvindo o que os outros tinham a dizer.

Será que eu gastaria tudo pensando em como meu encontro com o dela foi como chegar a calçada após atravessar uma avenida lotada de carros e por pouco não ser atropelada várias vezes?

Talvez naqueles últimos minutos em pensasse no quanto eu não merecia ir pra um local bom, porque se eles estivessem certos a respeito da máxima em que pessoas boas vão a lugares bons, eu tenho certeza que não seria uma delas.

Será que vou me perguntar se podia ter sido melhor do que fui?
Será que eu sentiria frustração e medo, mesmo tendo desejado morrer tantas vezes?

Porque agora eu tenho sentido como se o mundo inteiro corresse enquanto eu congelo e não consigo me mover ou  pensar sobre as respostas das milhares de perguntas que eu mesma me fiz. E talvez, só talvez essa seja a 

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segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Anne.

"A não ser que você escreva, não saberá como é maravilhoso; eu sempre reclamava de não conseguir desenhar, mas agora me sinto felicíssima por saber escrever. E, se não tiver talento para escrever livros ou artigos de jornal, sempre posso escrever pra mim mesma. Mas quero conseguir mais que isso. [...] Quero ser útil ou trazer alegria a todas as pessoas, mesmo àquelas que jamais conheci. Quero continuar vivendo depois da morte."


- Trecho de "O diário de Anne Frank" em 05 de abril de 1944.

domingo, 6 de novembro de 2016

Ela e eu.

Ela adora a exatidão e eu adoro a abstratividade. Ela tem medo do desconhecido e eu adoro um mistério. Ela gosta de ter o futuro nas mãos e eu gosto de que ele me tenha. Eu adoro falar sobre poesias e ela acha tudo uma bobagem. Eu gosto da intensidade e ela não se arrisca além da superfície. Eu acredito em amores de um dia e ela sonha com a rotina. Ela quer um amor que dure pra sempre, eu só quero amar qualquer coisa que me faça ter vontade de continuar vivendo. Ela odeia sujar os pés de areia e eu adoro o mar. Ela acha que noite é pra dormir e eu acho que noite é pra observar a lua, tomar um vinho e fazer amor. Ela quer conhecer monumentos históricos e pontos turísticos e eu quero lembrança cravada no peito de que pintei de amor os meus caminhos. Eu acho que sou um balão, ela acha que sou uma âncora. Eu não sei por quanto tempo estarei aqui, ela acha que temos a eternidade. Eu explico que nasci pássaro, ela entende que nasci arara e amo pra vida inteira. Eu sorrio quando um raio de sol insiste em atingir meu rosto, ou o vento desarruma meu cabelo, eu me emociono com as pessoas que encontro na rua e me angustio com suas histórias e guardo tudo pra mim, não quero que ela revire os olhos pro meu excesso de sensibilidade quando ela só enxerga a minha máscara de valentia. Às vezes, eu acho que estaremos pra sempre juntas e ás vezes eu não sei se passamos de amanhã. 

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Inadequada

Eu sei que, antes mesmo de eu nascer, você sonhou com alguém que falasse baixo, sentasse adequadamente à mesa e comesse verduras, que fosse a igreja aos domingos, que andasse com os dedos dos pés flexionados e bumbum encaixado, que nunca ousasse pintar forte com o lápis de cor. Eu sei que você se perguntou quantos namorados eu iria ter. Que não fossem muitos, mas que não fosse nenhum, todo mundo dizia que eu iria "dar trabalho", toda menina ouve isso. Mas que no fundo cogitou e torceu, pra que, quem sabe, minha vocação fosse ser freira. Eu sei que ficou irritada com o meu primeiro e passageiro namorado e que ficou decepcionada quando viu que, pelo visto, seria o único, e mais ainda quando percebeu que minha vocação nunca passou tão longe do celibato. Eu sei que você imaginou meu casamento e os filhos que viriam após, todos nascidos do meu ventre, conforme a vontade do teu Deus. Eu sei que você moldou sua vida de tal forma, que somente alguém cuja felicidade devota fosse tamanha, que pudesse ecoar em suas hereditárias paredes de concreto e aço pintadas de rosa. Mas eu vim toda ao avesso, você diz que eu sou toda o contrário. Eu ando saltitante e vivo torcendo o pé. Me bato em todos os móveis e tenho horror a delimitações. Eu me sujo de comida e nem sempre estou feliz o suficiente pra sorrir. Sim, eu sou a realidade que bateu na tua porta nua e escandalosa. Sou a fofoca da vizinhança. Aquela poesia profana que você se sente obrigada a ler. Meu amor é revolucionário e meus filhos nasceram do mundo. Sim, eu sou toda heresia. Mas, ah se você soubesse... O quanto tem de grito entalado na minha garganta e quanto há de felicidade guardada no meu peito desde que descobri que eu não sou inadequada no mundo todo apesar de ser inadequada no teu, que eu não preciso ter medo de ser assim tão como eu sou, porque eu fui feita pra carregar o pecado de não ser nada como você e não há problemas nisso quando se aprende a cuspir as mágoas que envenenam o coração e encontrar paz interna em plena confusão mundana, é o que eu desejo pra mim e é o que eu desejo pra você: paz diante do que não podemos mudar.

Por que demoramos tanto?


Corpo. Língua.
Entrada. Saída.
Tudo é caos.
Molhado. Suado.
Em cima. Do lado.
Tudo se desfaz.

Os nossos rios correm em direções contrárias.
Nossas estradas não estão sinalizadas.
É permitido correr e estacionar nas minhas ruas.
Eu transbordo ao tocar sua pele nua.
Por que demoramos tanto?

Corpo. Língua.
Entrada. Saída.
Tudo é caos.
Molhado. Suado.
Em cima. Do lado.
Tudo se desfaz.

As nossas vidas correm em direções contrárias.
Minha estrada tá vazia sem você na entrada.
Não nos permitimos correr, estacionamos.
Eu transbordo de saudade.
Por que demoramos tanto?

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Outra carta.




17 de outubro de 2016.

Olá, lembra de mim? Eu te escrevi no dia 17 de outubro de 2011, a sétima carta daquele mês, a enésima daquele ano, era um fim de tarde e eu estava decidida a não aguentar mais.Você provavelmente recebeu minha carta e me esperou, por isso, te peço desculpas. Eu tentei, mas eu não contava com o que aconteceria depois. Você sabe, eu planejei tudo por muito tempo, mas a vida amassou tudo e me fez improvisar.
Naquela noite, as luzes se apagaram eu sentia uma felicidade robótica correr nas minhas veias, eu ri e chorei. Eu sentia alívio e medo. Eu não sabia o que viria a seguir, mas eu esperava que fosse a paz. Eu não sabia pra onde eu estava indo, mas eu esperava que fosse mais bonito que os pores do sol que eu abriria mão. Que eu descanse em paz, eu dizia. Uma lágrima caia e eu gargalhava. Não vai mais doer, não vai mais doer, cantarolavam baixinho ao meu ouvido. Dizia adeus as minhas dores, dizia adeus aos meus amores, tudo tem um preço a se pagar. Eu cuspi minha alma e tremi a noite inteira. Na manhã seguinte, o mundo acordou e pra minha decepção eu também.
Mas eu já tinha a resposta pra tudo de ruim que pudesse me acontecer,eu tinha a solução pra qualquer dor que viesse me acometer, mas eu não sabia o que fazer se a vida me fizesse... Feliz? Pois foi o que ela fez. Quando dei por mim, precisava improvisar. Eu precisava ficar pra me apaixonar, pra rir, pra ver o por do sol. Eu precisava estar aqui pra ouvir o barulho do mar, sentir o vento no meu rosto e ouvir a gargalhada de uma criança. Eu precisava sentir a eletricidade da vida dar vida ao meu corpo, que há tempos havia esquecido como ver beleza e cores,como permitir-se ser feliz. Eu era marionete na mãos poderosas do tempo, eu ditei meus caminhos e me dei mal muitas vezes, mas em cada curva eu vi algo, eu vi alguém, eu senti, eu amei e tudo isso porque no outro dia eu acordei, tudo isso porque eu fiquei.