São asas que eu nunca pude usar.

Um diário. Um desejo. Um desabafo. Um desaforo. Um suor que escorre do coração aos dedos. Uma insônia que atormenta. Um medo, que transborda. Pensamentos que reviram e remexem e acabam vindo parar aqui.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Anne.

"A não ser que você escreva, não saberá como é maravilhoso; eu sempre reclamava de não conseguir desenhar, mas agora me sinto felicíssima por saber escrever. E, se não tiver talento para escrever livros ou artigos de jornal, sempre posso escrever pra mim mesma. Mas quero conseguir mais que isso. [...] Quero ser útil ou trazer alegria a todas as pessoas, mesmo àquelas que jamais conheci. Quero continuar vivendo depois da morte."


- Trecho de "O diário de Anne Frank" em 05 de abril de 1944.

domingo, 6 de novembro de 2016

Ela e eu.

Ela adora a exatidão e eu adoro a abstratividade. Ela tem medo do desconhecido e eu adoro um mistério. Ela gosta de ter o futuro nas mãos e eu gosto de que ele me tenha. Eu adoro falar sobre poesias e ela acha tudo uma bobagem. Eu gosto da intensidade e ela não se arrisca além da superfície. Eu acredito em amores de um dia e ela sonha com a rotina. Ela quer um amor que dure pra sempre, eu só quero amar qualquer coisa que me faça ter vontade de continuar vivendo. Ela odeia sujar os pés de areia e eu adoro o mar. Ela acha que noite é pra dormir e eu acho que noite é pra observar a lua, tomar um vinho e fazer amor. Ela quer conhecer monumentos históricos e pontos turísticos e eu quero lembrança cravada no peito de que pintei de amor os meus caminhos. Eu acho que sou um balão, ela acha que sou uma âncora. Eu não sei por quanto tempo estarei aqui, ela acha que temos a eternidade. Eu explico que nasci pássaro, ela entende que nasci arara e amo pra vida inteira. Eu sorrio quando um raio de sol insiste em atingir meu rosto, ou o vento desarruma meu cabelo, eu me emociono com as pessoas que encontro na rua e me angustio com suas histórias e guardo tudo pra mim, não quero que ela revire os olhos pro meu excesso de sensibilidade quando ela só enxerga a minha máscara de valentia. Às vezes, eu acho que estaremos pra sempre juntas e ás vezes eu não sei se passamos de amanhã. 

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Inadequada

Eu sei que, antes mesmo de eu nascer, você sonhou com alguém que falasse baixo, sentasse adequadamente à mesa e comesse verduras, que fosse a igreja aos domingos, que andasse com os dedos dos pés flexionados e bumbum encaixado, que nunca ousasse pintar forte com o lápis de cor. Eu sei que você se perguntou quantos namorados eu iria ter. Que não fossem muitos, mas que não fosse nenhum, todo mundo dizia que eu iria "dar trabalho", toda menina ouve isso. Mas que no fundo cogitou e torceu, pra que, quem sabe, minha vocação fosse ser freira. Eu sei que ficou irritada com o meu primeiro e passageiro namorado e que ficou decepcionada quando viu que, pelo visto, seria o único, e mais ainda quando percebeu que minha vocação nunca passou tão longe do celibato. Eu sei que você imaginou meu casamento e os filhos que viriam após, todos nascidos do meu ventre, conforme a vontade do teu Deus. Eu sei que você moldou sua vida de tal forma, que somente alguém cuja felicidade devota fosse tamanha, que pudesse ecoar em suas hereditárias paredes de concreto e aço pintadas de rosa. Mas eu vim toda ao avesso, você diz que eu sou toda o contrário. Eu ando saltitante e vivo torcendo o pé. Me bato em todos os móveis e tenho horror a delimitações. Eu me sujo de comida e nem sempre estou feliz o suficiente pra sorrir. Sim, eu sou a realidade que bateu na tua porta nua e escandalosa. Sou a fofoca da vizinhança. Aquela poesia profana que você se sente obrigada a ler. Meu amor é revolucionário e meus filhos nasceram do mundo. Sim, eu sou toda heresia. Mas, ah se você soubesse... O quanto tem de grito entalado na minha garganta e quanto há de felicidade guardada no meu peito desde que descobri que eu não sou inadequada no mundo todo apesar de ser inadequada no teu, que eu não preciso ter medo de ser assim tão como eu sou, porque eu fui feita pra carregar o pecado de não ser nada como você e não há problemas nisso quando se aprende a cuspir as mágoas que envenenam o coração e encontrar paz interna em plena confusão mundana, é o que eu desejo pra mim e é o que eu desejo pra você: paz diante do que não podemos mudar.

Por que demoramos tanto?


Corpo. Língua.
Entrada. Saída.
Tudo é caos.
Molhado. Suado.
Em cima. Do lado.
Tudo se desfaz.

Os nossos rios correm em direções contrárias.
Nossas estradas não estão sinalizadas.
É permitido correr e estacionar nas minhas ruas.
Eu transbordo ao tocar sua pele nua.
Por que demoramos tanto?

Corpo. Língua.
Entrada. Saída.
Tudo é caos.
Molhado. Suado.
Em cima. Do lado.
Tudo se desfaz.

As nossas vidas correm em direções contrárias.
Minha estrada tá vazia sem você na entrada.
Não nos permitimos correr, estacionamos.
Eu transbordo de saudade.
Por que demoramos tanto?